Sentou-se ao seu lado no autocarro e ele não tinha ideia de como agir. Já a tinha visto milhões de vezes sentada nos bancos do autocarro, não todos os dias porque ela tinha tendência a atrasar-se para os seus supostos compromissos. Ia sempre a ouvir a sua musica e a cantá-la sem som, perdida no seu mundo da lua e completamente desapercebida de que alguém a poderia estar a ver. A sua simplicidade misturava-se com a de vez em quando complexidade no estilo: tinha dias que podia somente levar uma t-shirt e umas calças de ganga e tinha dias em que poderia levar uns saltos e uma roupa bem mais madura e escolhida. Tinha o seu próprio estilo e nela não se encontravam bujigangas. Lá ia ela, cantando e dançando de suavezinho no seu mundo aéreo deixando os seus cabelos ao som da melodia e do vento que soprasse para (com a sorte) tocar nos seus cabelos. Ela ficava bem de todas as maneiras, de cabelo ondulado ou esticado a cor embelezava sempre bem no sol que a parecia querer fazer reluzir. As ondas encaixavam umas nas ondas e davam aquele ar latino que lhe fazia perder a cabeça, caíam suavemente pelo seu rosto e tocavam nos lábios perfeitamente desenhados. Os olhos eram grandes e intensos e, imaginá-los a olhar para si poderia fazê-lo tremer... Ou perder a cabeça. As unhas toscamente deixadas de roer podiam ter ou não cores e o sorriso que esboçava trazia uma paz e uma felicidade à sua volta que ele sentia mesmo sem a conhecer. O seu corpo fino e bem esculpido, magro e altivo tinha a sua maneira de o intrigar, de fazer querer tocar na pele e de sentir o cheiro suave que todos têm mas que só dela seria característico. E quando ela olhava, pelo meio dos cabelos para algum lugar, tudo ficava extremamente interessante: ela olhava, as pestanas negras e os olhos enormes davam aquele olhar sensual sem que essa fosse a intenção. Estava perdido, tinha de conhecer aquela rapariga! Queria-o, desejava-o e decididamente não conseguia ir no autocarro mais uma vez sem saber o som da sua voz, e a força das suas palavras dirigidas somente a ele. Perdido nos seus pensamentos nem se apercebeu que tinham acabado de chegar a Cacilhas e que seria aí que ele a perderia de vista... Pelo menos até à manhã seguinte.
Roads ~ portishead